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Reflexão Você se considera uma pessoa programada? “É claro que não”, certamente você responderá. “Sou um livre pensador, tenho minhas próprias idéias, meus princípios, meus valores, meu ideais, meus...” Sem dúvida, você é absolutamente livre para pensar o que quiser. Aliás, a liberdade é uma característica da condição humana, uma vez que o homem está destinado a escolher. Cada instante da vida humana exige decisão. Opção e posicionamento diante dos acontecimentos. São situações de importância comparável à da semeadura, pois colhe-se, também na vida, exatamente aquilo que se plantou. E quem sabe disso encara cada situação de escolha com respeito, sentindo sobre a cabeça a espada de Dâmocles, ou seja, o peso de tal responsabilidade. Sim, você é livre para escolher. Mas apenas potencialmente livre. Isto porque quando as influências externas são fortes e atuam de forma insistente e sistemática elas podem acabar sufocando este sagrado direito humano. E tal repressão pode ocorrer de forma violenta ou mascarada. No primeiro caso, é praticamente uma regra haver reações por parte do oprimido. A própria História nos dá muitas ilustrações a esse respeito; afinal, quantas revoluções já ensangüentaram países em nome da chamada liberdade de pensamento e expressão? No segundo caso a opressão é sutil, tão sutil que passa por inexistente, e o próprio oprimido não só não reclama como ainda proclama aos quatro ventos que está tudo bem e que ele vive num ambiente em que sua liberdade é respeitada. É o que acontece em nossa sociedade, considerada democrática, em que nós cidadãos, sejamos médicos ou pacientes, somos enganados e levados a gostar de tal papel, e condenados, justamente por isso, a acatar o que nos é sutilmente imposto pelas duas faces da mesma moeda: a falência induzida ao setor público de saúde e o crescimento dos chamados planos e seguros de saúde. Habilmente programados pelo sistema mercadológico-publicitário destas empresas, médicos e pacientes desistem de se empenhar ou influir na defesa e construção de uma “Saúde Pública para Todos”, e se adaptam ao “novo mercado”, em que a “Saúde Privada” foi deturpada e travestida em forma de convênio, rasgando os milenares princípios da Medicina de confiança, motivação e dedicação, médicos se acomodam em obter clientela referenciada por empresários-investidores, e pacientes admitem que burocratas-negociantes possam escolher onde, como e por quem serão tratados. Assim, um homem programado pelo sistema e pelos meios de comunicação engole as opiniões da imprensa sem nada questionar; acata as posições dos âncoras da TV com admiração, bebendo suas afirmações postiças; adota as idéias anárquicas, nocivas e maçantes expressas nas caras e novelas; repete o que ouve, lê e assiste; enfim, interpreta o mundo exatamente como querem que ele o faça. Afinal, tanto gasto com publicidade deve dar resultado. Basta aferir o gigantesco investimento que roda toda a máquina, vende o cigarro que mata, o luxo que ofende, a luxúria que enoja, e pior, vulgariza e ridiculariza bons sentimentos e ações, confundindo cidadania com caretice. Um homem cujas atitudes são fruto de manipulação alheia e que, por isso mesmo, se conduz na vida de forma mecânica está sempre sujeito a ser influenciado e afetado. Sua mente atua como uma máquina que se abastece de qualquer combustível. Como os combustíveis à disposição normalmente são negativos, contaminado por ideologias de dominação, eles produzem uma espécie de veneno que imediatamente lhe infecta o cérebro, o coração, os sentidos, o sangue, o corpo e a sua constituição humana. A partir de então, o indivíduo não tem condições de perceber a realidade, divaga e perde de vista não só a sua verdadeira individualidade como também a sua própria consciência. Passa a gostar do que acha que todos devem gostar para serem admirados, estarem na moda e, supremo objetivo, serem um sucesso. Sucesso este inconsistente e inexplicável, cada vez mais efêmero, que vira permanente ansiedade, dor d’alma que exige droga para curto alivio. Os fatos comprovam, por todos os meios, que os poderes constituídos das sociedades contemporâneas, por detrás da máscara de democracia, vivem profundas contradições entre o discurso eleitoral e oficial, e a prática executiva, legislativa e judiciária. Ao invés de priorizarem a educação e a saúde, atuam muitas vezes de forma submissa aos interesses ideológicos e comerciais mais imediatistas, impondo e obrigando a população, de forma ora sub-liminar, ora ostensiva, a adotar seus questionáveis conceitos, valores, hábitos e até vocabulário. E infelizmente, os meios de comunicação fogem do debate e adotam posturas semelhantes perante os fatos, raramente divergindo entre si, e induzem cada pessoa a pensar, agir e falar como a grande massa faz, ou deve fazer. Tal atitude, cômoda para uma maioria inconsciente, impede a pactuação de um novo consenso, a adoção de mudanças mais rápidas e a execução de revoluções mais justas, e garantem aos poderosos que “tudo fique exatamente como está”. O Livro Regional de Saúde e a Central Médica de Convênios têm como objetivo contribuir para reverter esse quadro de na área de saúde, apresentando uma alternativa concreta para despertar médicos e pacientes, todos os cidadãos enfim, da dormência mecanicista programada por uma minoria (de médicos, empresários e clientes) que prima pelo egoísmo e espírito mercenário, pleno de ganância e usura, e temor da concorrência livre, ampla e ética. Diante dessa avassaladora onda de materialismo, deslealdade e tola competição, os ideais subjacentes a este Livro e à própria Medicina, como o direito de todo médico atender todo paciente que assim deseje, e de todo paciente escolher o médico e instituição a quem entregar sua saúde, podem parecer utópicos. Assim, é imprescindível que aumente o número de profissionais idealistas e de pacientes sensíveis a essa verdade, com disposição de espírito que lhes permita não só compreender a dimensão dessa busca por uma nova concepção de relação médico-paciente-empresas-governo, mas também de sua responsabilidade em se manifestar e colaborar para que esta 4a Edição do Livro Regional de Saúde não seja a última. Portanto, todos os cidadãos conscientes estão convidados a participar do trabalho de aperfeiçoamento e divulgação deste Livro e do portal associado, preparando o lançamento de sua próxima edição, cada vez mais correta, completa, abrangente, influente e tão desejosa quanto a própria Medicina e os bons médicos pela inatingível e sonhada perfeição.
Adaptado
do Editorial da Revista Humanus 1, ano 2000
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